O quarto de Jack – Lenny Abrahamson [Filme]

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Direção – Lenny Abrahamson

Título original – Room

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Acabo de chegar do cinema onde, finalmente, fui assistir a O quarto de Jack. Cheguei maravilhado. Vinha pela rua, a caminho de casa, pensando no que escreveria sobre este longa. Embora esta postagem só vá ser publicada amanhã (estou programando0a para as 6h30) mas, estou escrevendo isto hoje (sexta-feira, 03). São exatamente 22h. Fui à sessão de 18h 50 que encerrou as 21 horas. Fui almoçar e depois vim pra casa. Que filme!

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Antes de começar a comentar sobre este filme quero informar uma coisa surpreendente que aconteceu aqui no blog hoje (domingo, 06/abr/16). Acabo de receber um comentário fantástico que peço a quem está lendo esta postagem para conferir. Para facilitar, estou colocando no final a postagem o comentário mencionado do leitor Kleber Cruz.

Sem dúvida ele será o melhor filme de 2016. Pouquíssimas vezes, muito poucas mesmo! Talvez umas 3 ou 4 vezes, no máximo, em toda a minha vida, assisti a um filme que fizesse eu me manifestar publicamente, quero dizer, externar o que estava sentindo. Sempre, ou em quase a totalidade das vezes em que fui ao cinema, mesmo em casa, vendo na televisão, minhas reações são introspectivas. Sou muito fechado. Quem me conhece sabe. Não externo facilmente os meus sentimentos.

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Mas, neste filme, me flagrei várias vezes, muitas mesmo, mais de 10, me flagrei rindo alto, chorando, gargalhando, fazendo ar de riso, captando, junto com o diretor, os sentimentos ou graciosidades das reações de uma criança. Lindo! O filme é maravilhoso! Tanto que vou ver outra vez segunda-feira ou terça. Preciso apreender melhor os diálogos. Só consigo lembrar de um deles mas, que pena! Não posso dizer pois seria um spoiler. Mas vou tentar contar sem dar spoiler, mesmo que para isto tenha que distorcer um pouco os fatos.

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Jack não cortava o cabelo porque acreditava que sua força estava neles, como em Sansão. Certamente ele tinha visto o filme na TV e guardou isso. Pois bem, um dia a mãe (chamada de Ma) fica doente e ele diz a ela que queria cortar o cabelo pois ela estava precisando de mais força do que ele. Achei isso de uma magnanimidade fantástica. Bem próprio de uma criança.

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E o desempenho de Jacob Tremblay é perfeito! Ele dá um show à parte junto com Brie Larson (Oscar de Melhor atriz este ano). Ele quem merecia o Oscar de melhor ator, com mérito milhões de vezes maior que DiCaprio e até melhor que o de Redmayne. O roteiro é baseado no livro Room da escritora irlandesa Emma Donoghue que eu também preciso ler urgentemente.

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Jack é um garoto que acaba de completar 5 anos e, desde que nasceu vive num quarto de apenas 10 m² junto com sua mãe. O mundo que ele conhecia era aquele quarto. Nunca saiu de lá, sempre viveu lá, não conhecia outra coisa a não ser aquele quarto com uma cama, 2 cadeiras, uma pia. Lá ele lê, assiste à televisão, brinca, dorme, sonha. Toda sua vida se resume ali, naquelas quatro paredes. E a única pessoa com quem ele já tinha tido contato era com a mãe. Conhecia outras pessoas pela TV mas, a mãe lhe dizia que aquelas pessoas não existiam de verdade. Nunca tinha visto nada fora daquele quarto pois, sequer janelas tinha no quarto. Apenas uma claraboia por onde entrava a luz do sol durante o dia.

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O enredo do filme lembrou muito O mito da caverna. A diferença é que no filme o menino pode se mover e olhar em todas as direções. O que vê são apenas aquelas coisas que estão ali no quarto e as quatro paredes. Mas muito se assemelha ao Mito da caverna de Platão. Todas as manhãs, Jack dava bom dia às coisas do quarto, uma a uma. Em determinados horários a mãe o fazia fazer alongamento, ginástica e correr de um lado para outro, indo e voltando ao longo de pouco mais de 2 metros entre duas paredes. A mãe o criou com um amor acima de qualquer coisa e uma paciência infinita embora que, algumas vezes, ela perdia essa paciência e Jack sofria. Algumas noites, Nick, o homem que tinha prendido Ma ali há sete anos, vai visitá-la e, para que Jack não tenha contato com ele, Ma o deixa trancado dentro de um armário onde ele dorme até Nick sair quando ela o põe na cama novamente. Não posso contar mais detalhes sobre o filme para não dar spoiler.

Mereceu 5 estrelinhas (das 5 possíveis)5-estrelas-red

Como mencionei no início desta postagem, estou transcrevendo a seguir o comentário do leitor Kleber Cruz que acaba de deixá-lo aqui no blog. Fiquei maravilhado por várias razões: ele tem uma enorme facilidade de expressão, é o maior comentário que alguém já deixou aqui no blog, suas idéias são muito parecidas com as minhas e estou muito grato a ele por tanta simplicidade e descontração. Volte mais vezes aqui Kleber. Será um enorme prazer.

Agora desfrutem o que ele escreveu.

Boa noite, acabei de ler seu texto sobre o filme “Quarto de Jack” e queria primeiro parabenizá-lo pelas colocações mais do que pertinentes, e também por me identificar muito com seu ponto de vista sobre o filme, pois foi exatamente como me senti após assistir. Li o livro e fico surpreso dele, tão reconhecido mundo afora, ser tão pouco conhecido no Brasil. Sou tradutor e revisor de livros e por conta da minha profissão digamos que já folheei muitas páginas ao longo da minha vida, mas confesso que nenhum livro tocou a minha alma onde o Jack conseguiu chegar. Quanto ao filme, apesar de não conter tudo o que há no livro, ainda assim emociona e nos faz pensar. O que eu posso dizer é que não consegui dormir aquela noite, ainda revendo tudo mais detidamente. Não sei por que, mas depois do filme, igualzinho a você, senti uma vontade – não, uma necessidade, de pôr no papel o que tinha visto e descrever o que tinha sentido, o mesmo de quando li o livro (mas que até então tinha ficado apenas guardado). Depois de algumas linhas, me senti compelido a escrever pra minha mãe (É, uma carta mesmo, papel, caneta, selo, essas coisas! É que ela não se dá muito com e-mails e mora em outra cidade). É bem peculiar o que um filme desses provoca nas pessoas – acho que em mim foi uma vívida sensação de familiaridade com as palavras do Jack.”
Aqui está um trecho:

“Não consegui dormir essa noite, ainda pensando no filme. Na verdade, quando eu li o livro já tinha ficado do mesmo jeito, meio sem saber o que dizer. Mas acho que as imagens do filme são mais fortes do que as palavras do livro, e mais do que pensar, te fazem reviver. Acho que me vi de novo com 5 anos, mesmo que as lembranças sejam igual um filme muito antigo que a gente não sabe direito de quando foi. Queria me lembrar mais, queria ver aquele garoto, mais nitidamente do que as lembranças meio apagadas que eu tenho. Nenhum garoto de 5 anos tem idéia do que as mães passam pra criá-los. E acho que mesmo depois, quando a gente cresce, parece não se dar conta – ou importância. Talvez eu tenha feito pouco, talvez pudesse ter feito mais. Na cabeça de uma criança, ser um bom filho parece menos que obrigação e mais um tipo de barganha, quando você quer alguma coisa em troca. Não é por maldade, talvez apenas a simplicidade ingênua que a gente tem quando é pequeno e que se perde com o tempo.
As lembranças que eu tenho às vezes parecem meio embaralhadas, meio esfumaçadas pelo tempo… Lembro de uma escola enorme, e tão longe que pra chegar parecia uma aventura, até mesmo passar na porta de um cemitério era preciso. E nem imaginava que aquilo tudo custava dinheiro, e o quanto custava. Fico imaginando quantas roupas lavadas deve ter custado. Deve ser por isso que me lembro tanto de roupas no varal, de me esconder no meio delas pra brincar. Lembro de uma noite de febre muito forte, de uma mãe com um filho… um carro, um hospital. Lembro de uma mãe carregando um menino como pé enfaixado, descendo um morro esburacado, acho que era uma kombi de escola que esperava lá embaixo. Lembro de uma mãe com um filho e umas bolsas, subindo outro morro, esse de tão alto parecia uma montanha, e que pra se chegar lá tinha que atravessar uma passarela escura, que no fim dava voltas e mais voltas… Lembro de uns pés de mato que a mãe mandava o menino apanhar no quintal, e que era para pôr na comida, e dava um gosto bom.
Não me lembro de muitos natais. Nem de presentes de natal embaixo de árvore de natal. Não que não tivesse presentes, mas aquilo que se via na tv, que as pessoas faziam no natal, parecia de algum filme, ou só da tv. Talvez porque comida fosse mais importante que árvore de natal, ou porque o papai noel devia ser gordo demais pra subir o tal morro esburacado. De qualquer forma, isso não mudava a sensação de que era uma época especial, de que alguma coisa acontecia, pelo menos nas casas das pessoas, que pareciam sempre tão cheias de gente, de barulho e de cheiros. Mas se isso tornou mais difícil acreditar num velho gordo de barba branca e roupa vermelha, ao menos me ensinou o quão fúteis podem ser os motivos que levam as pessoas a se empanturrarem numa noite de dezembro, e que o sentido do natal é qualquer coisa menos comida.
Depois que se cresce, quando a gente não precisa mais ir à escola, e acha que já aprendeu tudo, que finalmente virou gente grande, o que resta são as lembranças. E acho que esse é o nosso maior engano – achar que já aprendeu tudo. Acho que aqueles que fixam os olhos só pra frente mais cedo ou mais tarde acabam se perdendo no caminho, por isso não esqueço do menino da história, que deixava pedaços de pão no meio do mato pra lembrar do caminho de volta – João e Maria, acho. Quando olho pra trás, e acabo descobrindo as migalhas que ficaram no caminho, eu sei que posso voltar. Ainda reconheço as feições daquele menino, posso ouvir os sons da noite que o faziam dormir todo encolhido debaixo do cobertor, posso sentir o cheiro que inundava aquela casa velha, com aromas de arroz, feijão apitando na panela de pressão, e alguma outra coisa gostosa e indistinta no prato, que tinha de me apressar a comer pra não perder a hora da escola. Lembrar de tudo isso, de todas essas migalhas de pão, me ensinam que eu não aprendi tudo que tinha pra aprender, que a última lição é não esquecer. Não esquecer os conselhos, a mudez, o sorriso, a zanga, as dores. Acho que é disso que somos feitos, de um punhado de migalhas de pão guardadas, pra nos lembrar do caminho de casa.”

“Como você disse que ainda não decorou muito o filme, disponibilizei no meu canal no youtube uns trechos, apenas alguns do livro que mais me tocaram.
https://www.youtube.com/results?search_query=kleber+cruz+quarto+de+jack

A propósto, gostei muito de todas as suas dicas de filmes.
Um abraço, Kleber Cruz”

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Alberto Valença nasceu em Olinda - PE. Sempre gostou muito de escrever, sendo a leitura um de seus divertimentos preferidos. Com quatro graduações concluídas, o autor enveredou por várias áreas do conhecimento. Em 1973 concluiu Licencitaura em Física pela UFPE, em 1980 concluiu Bacharelado em Psicologia e Formação de Psicólogo com especialização na área de Psicologia Escolar. em 1999 bacharelou-se em Direito e, no mesmo ano, foi aprovado na OAB-PE exercendo a profissão por dez anos. Publicou em 2014 um poema numa antologia e, agora, publica 15 poemas em outra antologia. Desde a infância gostava também de cinema e, em 2006, criou o blog Verdades de um Ser no qual divulga seus textos e comenta sobre literatura e cinema. Posteriormente, criou também o blog O seu companheiro de viagem, com o qual compartilha suas experiências de viagem oferecendo sempre dicas valiosas para quem quer viajar.
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Uma ideia sobre “O quarto de Jack – Lenny Abrahamson [Filme]

  1. kleber cruz

    Boa noite, acabei de ler seu texto sobre o filme “Quarto de Jack” e queria primeiro parabenizá-lo pelas colocações mais do que pertinentes, e também por me identificar muito com seu ponto de vista sobre o filme, pois foi exatamente como me senti após assistir. Li o livro e fico surpreso dele, tão reconhecido mundo afora, ser tão pouco conhecido no Brasil. Sou tradutor e revisor de livros e por conta da minha profissão digamos que já folheei muitas páginas ao longo da minha vida, mas confesso que nenhum livro tocou a minha alma onde o Jack conseguiu chegar. Quanto ao filme, apesar de não conter tudo o que há no livro, ainda assim emociona e nos faz pensar. O que eu posso dizer é que não consegui dormir aquela noite, ainda revendo tudo mais detidamente. Não sei por que, mas depois do filme, igualzinho a você, senti uma vontade – não, uma necessidade, de pôr no papel o que tinha visto e descrever o que tinha sentido, o mesmo de quando li o livro (mas que até então tinha ficado apenas guardado). Depois de algumas linhas, me senti compelido a escrever pra minha mãe (É, uma carta mesmo, papel, caneta, selo, essas coisas! É que ela não se dá muito com e-mails e mora em outra cidade). É bem peculiar o que um filme desses provoca nas pessoas – acho que em mim foi uma vívida sensação de familiaridade com as palavras do Jack.
    Aqui está um trecho:

    “Não consegui dormir essa noite, ainda pensando no filme. Na verdade, quando eu li o livro já tinha ficado do mesmo jeito, meio sem saber o que dizer. Mas acho que as imagens do filme são mais fortes do que as palavras do livro, e mais do que pensar, te fazem reviver. Acho que me vi de novo com 5 anos, mesmo que as lembranças sejam igual um filme muito antigo que a gente não sabe direito de quando foi. Queria me lembrar mais, queria ver aquele garoto, mais nitidamente do que as lembranças meio apagadas que eu tenho. Nenhum garoto de 5 anos tem idéia do que as mães passam pra criá-los. E acho que mesmo depois, quando a gente cresce, parece não se dar conta – ou importância. Talvez eu tenha feito pouco, talvez pudesse ter feito mais. Na cabeça de uma criança, ser um bom filho parece menos que obrigação e mais um tipo de barganha, quando você quer alguma coisa em troca. Não é por maldade, talvez apenas a simplicidade ingênua que a gente tem quando é pequeno e que se perde com o tempo.
    As lembranças que eu tenho às vezes parecem meio embaralhadas, meio esfumaçadas pelo tempo… Lembro de uma escola enorme, e tão longe que pra chegar parecia uma aventura, até mesmo passar na porta de um cemitério era preciso. E nem imaginava que aquilo tudo custava dinheiro, e o quanto custava. Fico imaginando quantas roupas lavadas deve ter custado. Deve ser por isso que me lembro tanto de roupas no varal, de me esconder no meio delas pra brincar. Lembro de uma noite de febre muito forte, de uma mãe com um filho… um carro, um hospital. Lembro de uma mãe carregando um menino como pé enfaixado, descendo um morro esburacado, acho que era uma kombi de escola que esperava lá embaixo. Lembro de uma mãe com um filho e umas bolsas, subindo outro morro, esse de tão alto parecia uma montanha, e que pra se chegar lá tinha que atravessar uma passarela escura, que no fim dava voltas e mais voltas… Lembro de uns pés de mato que a mãe mandava o menino apanhar no quintal, e que era para pôr na comida, e dava um gosto bom.
    Não me lembro de muitos natais. Nem de presentes de natal embaixo de árvore de natal. Não que não tivesse presentes, mas aquilo que se via na tv, que as pessoas faziam no natal, parecia de algum filme, ou só da tv. Talvez porque comida fosse mais importante que árvore de natal, ou porque o papai noel devia ser gordo demais pra subir o tal morro esburacado. De qualquer forma, isso não mudava a sensação de que era uma época especial, de que alguma coisa acontecia, pelo menos nas casas das pessoas, que pareciam sempre tão cheias de gente, de barulho e de cheiros. Mas se isso tornou mais difícil acreditar num velho gordo de barba branca e roupa vermelha, ao menos me ensinou o quão fúteis podem ser os motivos que levam as pessoas a se empanturrarem numa noite de dezembro, e que o sentido do natal é qualquer coisa menos comida.
    Depois que se cresce, quando a gente não precisa mais ir à escola, e acha que já aprendeu tudo, que finalmente virou gente grande, o que resta são as lembranças. E acho que esse é o nosso maior engano – achar que já aprendeu tudo. Acho que aqueles que fixam os olhos só pra frente mais cedo ou mais tarde acabam se perdendo no caminho, por isso não esqueço do menino da história, que deixava pedaços de pão no meio do mato pra lembrar do caminho de volta – João e Maria, acho. Quando olho pra trás, e acabo descobrindo as migalhas que ficaram no caminho, eu sei que posso voltar. Ainda reconheço as feições daquele menino, posso ouvir os sons da noite que o faziam dormir todo encolhido debaixo do cobertor, posso sentir o cheiro que inundava aquela casa velha, com aromas de arroz, feijão apitando na panela de pressão, e alguma outra coisa gostosa e indistinta no prato, que tinha de me apressar a comer pra não perder a hora da escola. Lembrar de tudo isso, de todas essas migalhas de pão, me ensinam que eu não aprendi tudo que tinha pra aprender, que a última lição é não esquecer. Não esquecer os conselhos, a mudez, o sorriso, a zanga, as dores. Acho que é disso que somos feitos, de um punhado de migalhas de pão guardadas, pra nos lembrar do caminho de casa.”

    Como você disse que ainda não decorou muito o filme, disponibilizei no meu canal no youtube uns trechos, apenas alguns do livro que mais me tocaram.
    https://www.youtube.com/results?search_query=kleber+cruz+quarto+de+jack

    A propósto, gostei muito de todas as suas dicas de filmes.
    Um abraço, Kleber Cruz

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