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O meu vestibular de 1969 – a epopéia com uma redação

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Em 3 oportunidades já mencionei o meu drama no vestibular com a redação da prova de português. Na última vez que fiz referência a este caso (30/03/16) houve uma certa repercussão e, Mi Colmán, do blog Rivotril com Coca Cola demonstrou interesse em conhecer a história. Resolvi então compartilhar com todos que aqui neste blog aportam para lerem o que escrevi. Talvez seja mesmo interessante aquela velha história que só compartilhei com algumas pessoas ao longo da minha vida. Uma foi Marlene. Marlene de Souza Vaz que morava em Valença – RJ com quem mantive correspondência por uns 4 ou 5 anos, não sei bem ao certo. Uma das cartas com mais de 25 folhas (escritas dos dois lados, na frente e no verso) foi contando minha epopeia naquele vestibular de 1969. Vai fazer 50 anos daqui a 3 anos esse episódio e ainda me lembo como se tivesse ocorrido ontem. Minha primeira opção era para Engenharia e, como segunda opção, Física. Para que melhor compreendam o ocorrido, faz-se necessárias algumas informações adicionais.

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Como era a prova de português

Naquele tempo o vestibular durava cerca de 3 meses. Havia a prova de português em dezembro que era só uma redação e, só no final de janeiro, quando saiam os resultados desta prova, que era eliminatória, era que os candidatos que tinham tirado acima da nota mínima faziam as demais provas. E não eram todas num dia só. Era apenas uma em cada dia e havia um intervalo de uns 3 ou 4 dias entre cada uma. Ou seja, o vestibular começava em dezembro e só terminava em fevereiro. E ainda tinha o tempo de espera para sair o resultado final que demorava uns 10 dias.

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Os temas da redação naquele ano

Como eu não tinha problema com redação eu não estudei nada. Simplesmente esperei o dia de fazer a prova. Como acontece sempre, havia especulações sobre os possíveis temas para aquele ano. Sempre ofereciam 3 temas para o vestibulando escolher um deles. E como em 1969 estava se completando 10 anos da criação da SUDENE (ela foi criada em 15/12/69 através de uma Lei federal), estava como certo que um dos temas seria sobre esse aniversário. E aconteceu que, muita gente, muita gente mesmo, tinha decorado a redação para transcrever na hora da prova, admitindo que um dos temas seria este. Pois bem, isso vazou e, de última hora, a Comissão Organizadora resolveu substituir o tema que realmente iria ser este, por outro. Resultado? Milhares de pessoas estavam sendo eliminadas por terem fugido ao tema da redação. Essa foi a notícia nos jornais e telejornais no dia seguinte ao da prova. O tema era, por exemplo, O papel da Universidade na formação dos brasileiros e a pessoa escrevia sobre os dez anos da SUDENE pois, era esta a redação que tinham decorado. Foi um verdadeiro caos.

 

O meu drama

Onde é que eu entro nessa história toda? Evidentemente, eu não tinha decorado redação nenhuma. O tema que escolhi foi bem diferente disto. Eu não lembro mais dos outros dois mas, o que escolhi foi A FELICIDADE ESTÁ ENTRE NÓS ou, pelo menos, era este o tema que eu julgava que estava escrito na prova. No primeiro dia depois da prova, não houve problema algum. Li a notícia de que muitos estavam sendo eliminados por causa da fuga ao tema da redação mas, não dei importância. Isso não era o meu caso. Até que, conversando com alguém, falei do tema que eu tinha escolhido. E essa pessoa disse espantado: “Mas não foi esse o tema da redação. O tema era A FELICIDADE ESTÁ EM NÓS. Eu contestei com veemência. Não, o tema era esse outro. Tenho certeza. E fui pegar o jornal onde tinham sido publicados os 3 temas para mostrar àquela pessoa o que estava afirmando. Olhe aqui fulano (não recordo mais com quem foi essa discussão). Veja você mesmo. Aqui tem ENTRE NÓS e não EM NÓS como você tá dizendo. E eu estava lendo mesmo ENTRE NÓS só que o que estava escrito era EM NÓS e não ENTRE NÓS. Aí o tal fulano me acordou do meu delírio e mostrou-me que o que estava ali no jornal era EM NÓS. Olhando melhor, constatei que ele realmente tinha razão e me desesperei. Ora, EM NÓS era uma coisa completamente diferente de ENTRE NÓS. No primeiro caso estava se dizendo que a felicidade era parte de nós, estava em nosso ser, como parte integrante dele. No outro, que tinha sido como eu tinha visto, significava que a felicidade estava ao nosso redor, os outros eram os responsáveis por ela. Se eles não existissem, a felicidade não podia ser alcançada.

Aí foram vários dias de angústia até sair o resultado da prova. Eu passei, pois acredito que, quem corrigiu a minha prova, viu que eu não tinha escrito aquilo por ter decorado uma dissertação para transcrever na hora. Mas vivi dias de muita tensão. Como disse, o resultado não saia de imediato. Era o mês todinho de dezembro aguardando que dezenas de milhares de redações fossem corrigidas.

Isso mostra, como o nosso subconsciente é capaz de mudar nossa percepção. Como eu acreditava naquela época que a felicidade não fazia parte de mim, eu dependia dos outros ou das circunstâncias ou de alguma coisa exterior para ser feliz, eu Vi e Li o que eu acreditava ser verdade. Eu li A felicidade está ENTRE NÓS embora estivesse escrito outra coisa ali na prova. E isso me custou muitas noites de sono.

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Bem, esta é a história da minha tormenta com a redação do vestibular de 69. Mas pensa que a minha epopeia acaba por aí? Ledo engano. Ainda tem mais 2 episódios dantescos. O primeiro com a prova de Matemática e o outro com a prova de Física. Mas, isso é assunto pra um outro capítulo. (Risos…)

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