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Meu livro de cordel, Cora Coralina, Global Editora, 2012, Edição digital, SP, 112p.

MEU_LIVRO_DE_CORDELO livro foi lançado em 1976 mas, a edição digital é de 2012. Eu o adquiri em e-Book na Amazon para o meu Kindle, com o objetivo de ter algum livro da autora. Embora já tivesse lido vários poemas dela, não tinha nada dela em minha estante e, agora na era digital, minha estante é também no meu Kindle onde já tenho quase tantos livros quanto na minha estante física, onde conto já com quase trezentos livros.

A obra é dividida em duas partes, onde são enquadrados os 43 poemas, sendo 28 na primeira parte e 15 na segunda. Infelizmente, não se tratam de poesias de cordel, apesar do título.

Cordel, como todos sabem, é um tipo de literatura popular, caracterizado por ser impresso em papel de baixa qualidade, geralmente papel jornal, quase sempre colorido e com a capa em xilogravura. Surgiu num passado longínquo. Os gregos, romanos, fenícios e cartaginenses já conheciam esta literatura. A princípio era praticada através da oralidade e, na Idade Média, teve seus poemas impressos. Uma das principais características do cordel é a rima.  Por ter surgido da oralidade ele é ritmado, cantado. Outra característica é que, ao contrário dos livros que possuem vários formatos e tamanhos, o cordel sempre é no tamanho de 1/4 de folha de papel, isto é, mede 10 cm x 16 cm e sempre tem um número múltiplo de 4 páginas. Esta forma de literatura espalhou-se pelo mundo e, teve em Portugal, um dos seus campos mais fecundos. Oriunda de lá, chegou ao Brasil, tendo se difundido pelo Nordeste, razão pela qual, é mais conhecida como uma literatura característica desta região. Daqui a pouco eu falo o por quê de o Cordel ter prosperado no Nordeste e não em outra região qualquer do país. Recebeu esta denominação pois costuma-se pendurar em cordões os folhetos que são, geralmente, feitos em papel de baixa qualidade (para baratear a impressão), quase sempre papel jornal colorido, com capa em xilogravura¹, expondo assim o material para o público. É muito comum (era pelo menos) se encontrar em feiras aqui no Nordeste, estes folhetos pendurados como na foto abaixo.

literatura-de-cordel

O cordel se caracteriza principalmente pela rima dos versos. Segundo o site ABLC – Academia Brasileira de Literatura de Cordel (clique no link), há 11 maneiras diferentes de se escrever um cordel e, as poesias deste livro, em sua grande maioria, pelo menos, não se encaixa em nenhuma delas.

Uma outra característica importante na literatura de cordel é que mais de 90% dos seus praticantes são homens. Raramente se vê uma mulher escrevendo cordeis. Uma prova disto é que, da relação dos fundadores da ABLC, só há 3 mulheres de um total de 39. E, dos cordelistas famosos, cujas poesias estão expostas no site, nenhuma é de mulher. Das 40 cadeiras da Academia, nenhuma tem um nome feminino.

Mas, voltando ao livro: As poesias são singelas e retratam uma pureza e beleza encontradas pela autora nos mais escondidos recantos de seu habitat. Uma flor, um relógio, Jabuticabal, o Rio Vermelho, seu pai e, até mesmo um auto-retrato. O universo da poetisa é fecundo e belo através de seus olhos. Sua poesia é criativa e cheia de encantos. Cito como exemplos Meu destino, Estas mãos ou Cora Coralina, quem é você? que transcrevo abaixo alguns versos.

Cora Coralina, quem é você?

Sou mulher como outra qualquer.
Venho do século passado
e trago comigo todas as idades.

Nasci numa rebaixa de serra
entre serras e morros.
“Longe de todos os lugares”.
Numa cidade de onde levaram
o ouro e deixaram as pedras.

Junto a estas decorreram
a minha infância e adolescência.

(,,,)

Nunca recebi estímulos familiares para ser literata.
Sempre houve na família, senão uma hostilidade, pelo menos uma reserva determinada
a essa minha tendência inata.
Talvez por tudo isso e muito mais,
sinta dentro de mim, no fundo dos meus reservatórios secretos, um vago desejo de analfabetismo. (…)

Cora Coralina é uma famosa poetisa goiana, que viveu no século passado. Na verdade este nome é um pseudônimo. Seu nome de batismo era Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas. Nasceu em Vila Boa, Goiás, em agosto de 1889, às margens do Rio Vermelho.  Faleceu aos 95 anos em abril de 1985. Escreveu vários livros, sendo alguns póstumos, sendo sua primeira publicação pela José Olympio em 1965, Poemas dos becos de Goiás.

Por que o cordel prosperou no Nordeste? Ora, os portugueses aportaram primeiro no Nordeste e, a Bahia era o capital do Brasil na época. Alem disso, Pernambuco era a região mais próspera do país. Foi daqui que foram desencadeados praticamente todos os movimentos revolucionários da história do Brasil. Não era de se estranhar que a cultura também tivesse tido origem no Nordeste para sua difusão. Daí a razão de ter sido o cordel trazido para o Nordeste e daqui se difundido para o resto do país. Hoje temos literatura de cordel em outros Estados fora do Nordeste como Minas Gerais e Rio de Janeiro, inclusive, a sede da ABLC fica no Rio de Janeiro.

Mas, voltando ao livro, por uma falha encontrada, fiquei triste. Por ser Cora Coralina, não deveria haver um erro sequer, muito menos de ortografia. Todos sabem que quando se trata de tempo passado, usa-se o verbo haver e não a preposição “a” para se referir ao tempo decorrido.

No poema O chamado das pedras, ela escreve:

A velha candeia de azeite
de a muito se apagou.

Quando o correto seria de muito se apagou. Mas, o pior erro, foi da revisora. A senhora Tatiana F. Souza cometeu um erro grave e imperdoável. Ela ganhou para isto!

Mas, apesar desta falha e da questão do título, é um bom livro e merece ser prestigiado. Mereceu três estrelinhas.

Notas:

1 – xilogravura é uma técnica de impressão que utiliza uma matriz de madeira entalhada.

xilogravura

modelo-de-xilogravura

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Alberto Valença nasceu em Olinda - PE. Sempre gostou muito de escrever, sendo a leitura um de seus divertimentos preferidos. Com quatro graduações concluídas, o autor enveredou por várias áreas do conhecimento. Em 1973 concluiu Licencitaura em Física pela UFPE, em 1980 concluiu Bacharelado em Psicologia e Formação de Psicólogo com especialização na área de Psicologia Escolar. em 1999 bacharelou-se em Direito e, no mesmo ano, foi aprovado na OAB-PE exercendo a profissão por dez anos. Publicou em 2014 um poema numa antologia e, agora, publica 15 poemas em outra antologia. Desde a infância gostava também de cinema e, em 2006, criou o blog Verdades de um Ser no qual divulga seus textos e comenta sobre literatura e cinema. Posteriormente, criou também o blog O seu companheiro de viagem, com o qual compartilha suas experiências de viagem oferecendo sempre dicas valiosas para quem quer viajar.
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2 ideias sobre “Meu livro de cordel [Livro]

  1. Pandora

    Olá! Me emocionou seu esforço em procurar um post meu no oceano de posts de tantas pessoas na estante para comentar, então eu tive que vim aqui e fui tão bem recebida.

    Adorei a composição do seu texto como foi do livro para o cordel do cordel para o livro. Sou nordestina, amo esse gênero literário, faz parte da minha história de vida e de leitora. Meu pai é motorista, ele trazia na mala quando voltava das viagens pelo Sertão e eu lia. Claro, nos centros urbanos também existem cordéis, mas quando a gente ler nossa sensibilidade voa para o Sertão, a minha ao menos.

    Cora Coralina é uma autora que preciso conhecer mais e melhor e colocar na minha estante, seja virtual ou concreta. Meu kobo também é minha estante.

    Agora, em relação ao português… aaaah… esse é meu karma, aprecio a poesia, mas passo longe de conhecer as regras da escrita.

    Cheros, obrigada pela reciprocidade. Espero, sinceramente, que possamos ter vários encontros blogosfera a dentro.

    http://elfpandora.blogspot.com/

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  2. Alberto Valença Autor do post

    Oi Pandora, estou muito feliz em receber você novamente aqui no meu blog e fico grato por tão expressivo comentário. Garanto a você que não foi sacrifício algum procurar sua postagem naquele universo. Só foi meio angustiante pois demorei a encontrar e já estava meio desesperado. (Risos…)
    Mas valeu a pena. Fiquei como top comentarista do blog. Pelo menos naque4le momento. Você é meio felizarda por ter lido cordéis dessa forma. Trazidos pelo pai na mala de viagem. Que bom que seu pai lhe incentivou nessa leitura. Quanto ao português, é só um detalhe. Em alguns casos. Mas num livro, eu não perdoo. Não admito. Eu estou pagando pra ter algo de qualidade, não uma obra cheia de falhas. Nesta, em particular, só encontrei esta falha relatada mas, já li livros que a cada página era um susto. E uma irritação.
    Também espero que nos encontremos mais outras vezes nesta blogosfera. Um abraço pra você e volte outras vezes pra conferir as novidades. Você será sempre muito bem-vinda!

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