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A cidadela, Antoine de Saint Exupéry, Editora Quadrante, São Paulo e Editoral Aster, Lisboa;  1966m, tradução de Ruy Belo, 459p.

cidadelaCidadela é o livro póstumo e inacabado de Exupéry, publicado em 1948 pela primeira vez na França, foi depois traduzida para vários idiomas, inclusive o português. A publicação que tenho é de 1966 e teve a tradução de Ruy Belo.

A obra explora muito do interior do autor, com suas angústias, experiências de muita solidão, descobertas pessoais, a busca do sentido da vida, as coisas essenciais, a amizade, sua religiosidade, suas conversas com seu Deus interior, pessoal… Em grande parte das vezes, com uma linguagem lírica e poética.

a oração é fértil enquanto Deus não  responde

O autor viveu muitas vezes, horas intermináveis nas areias do deserto, sem qualquer alma viva com quem pudesse conversar, exceto seu próprio EU, um lápis, um papel e seu avião. Este livro foi editado com textos soltos escritos pelo autor, em sucessivos insights ao longo da vida, iniciado em 1936, ao passar várias noites em claro, gravando seus pensamentos e, no dia seguinte, uma secretária transcrevia tudo a máquina, sem modificar uma sílaba sequer, e mantendo todos os erros ou contradições. É portanto, um livro assistemático e fragmentado, sem uma idéia central ou, sequer, uma linha de pensamento. Por outro lado, evidencia a ternura, a sensibilidade de um ser especial, único, perspicaz e infinitamente sábio. É um livro filosófico.

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Alguém que é capaz de formular frases como “não dou beleza a um templo, se o recomeço a cada instante“;  ou “só há amor quando a escolha é irrevogável“, não é uma pessoa qualquer. É um ser especial e que, infelizmente, deixou este planeta muito cedo.

A dedicatória dele no livro “O Pequeno Príncipe”, sua obra-prima e seu livro de maior sucesso,  é algo que não me canso de repetir pois é algo que está fora das coisas comuns.

Ele dedica o livro ao seu maior amigo, Leon Werth. E pede desculpas às crianças, por dedicar aquele livro a uma pessoa grande, dando uma série de fortes razões para aquele absurdo. E finaliza dizendo:

Se todas essas desculpas não bastam, eu dedico então esse livro à criança que essa pessoa grande já foi.

Lembra então que:

Todas as pessoas grandes já foram um dia crianças

E acrescenta que:

poucas se lembram disso

Considero esta frase, esta dedicatória, uma das mais belas que já li. No final da dedicatória ele escreve:

A Leon Werth quando ele era pequenino

Não consigo falar em Exupéry sem falar no Pequeno Príncipe. Mas, “é preciso transformar-se para compreender“.

Com um belo prefácio de Alípio Maia de Castro, escritor de reconhecido valor tanto aqui no Brasil como em Portugal. Cidadela é composta por 219 capítulos, em sua grande maioria muito curtos, alguns com apenas poucas linhas, outros com algumas páginas mas, em geral, não mais que duas ou três.

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Os textos não tem uma ordem cronológica ou, com já disse, uma linha de pensamento definida. Tratam-se de textos soltos, que traduzem as descobertas e inquietações do autor. Se houvesse uma espinha dorsal em Cidadela, diria que esta passa pelas coisas essenciais (“que são invisíveis para os olhos“), e por um sentido para a vida. A vida de quem precisa encontrar ou construir,  a sua Cidadela, o seu Templo interior.

Antoine Jean-Baptiste Marie Roger Foscolombe, mais conhecido como Antoine de Saint Exupéry, nasceu em Lyon, França, em 29 de junho de 1900 e faleceu em 31 de julho de 1944, no litoral sul da França, próximo à Córsega. Seu falecimento é envolto em um certo mistério. Alguns dizem que ele foi abatido por um caça alemão mas, não há comprovação disto. O que se sabe é que ele partiu para uma missão de reconhecimento na manhã do dia 31 de julho de 1944 e, não voltou mais. Pelo tempo que partira e com o combustível que levava, não poderia mais estar voando. Seu corpo nunca foi encontrado e, em 2004, 60 anos depois, foram encontrados os destroços do seu avião nas proximidades da costa de Marseille, ao sul da França.

Exupéry era filho do Conde Saint Exupéry e da condessa Marie Foscolombe. Sempre foi apaixonado pela mecânica e isso o ajudou nos muitos acidentes de avião que sofreu ao longo da vida. Em 1921 ingressou no serviço militar na aviação, embora tenha prestado exame para marinha mas, foi reprovado. Um ano depois, já tinha o brevê de piloto militar.

Na contracapa do livro podemos encontrar a informação de que o autor, em 1936, em conversa com o amigo Pélissier, disse estar “escrevendo um poema”. Nos anos que permaneceu nos Estados Unidos continuou a escrever o que começara em 1936 e, em 1943, o original contava com 915 páginas datilografadas. Segundo confidenciou a Galloz, teria afirmado que “Em comparação com esta obra, todos os meus outros livros não passam de exercícios“. Cidadela é o livro de sua vida, que o autor ainda pretendia escrever por mais dez anos antes de publicá-lo.

Citações do livro

Ainda não tinha descoberto que nunca há solidão para os que morrem

Mas esse sorriso era vento nessa ribeira, rasto de um sonho, esteira de um cisne, dia a dia mais depurada e mais preciosa e mais difícil de conservar, até se tornar essa linha simples e puríssima, que fica quando o cisne já se foi embora.

Lá no fundo dessas chaminés verticais, que de tão profundas, refletem apenas uma estrela, a própria lama endurecera, e a estrela prisioneira tinha se extinguido. Ora basta a ausência de uma estrela para que uma caravana se desnorteie tanto, como se de uma emboscada se tratasse.

O essencial do círio, por exemplo, não é a cera que deixa, mas sim a luz que liberta

Aquilo que verdadeiramente importa, não se encontra entre as cinzas

O essencial da caravana descobre-lo quando ela se rala e se consome. (…) Se o precipício se opóe à sua marcha, ela contorna o precipício, se um rochedo se ergue diante dela, evita-o, se a areia é fina demais, põe-se à procura de uma areia resistente. Mas, de qualquer maneira, insiste sempre na mesma direção.

Se veneramos a memória do desaparecido ele encontra-se mais presente e tem mais poder do que o vivo

Havia um quarto vazio, que nunca ninguém soube para que servia – e que talvez não servisse para nada, a não ser para fazer ressaltar o sentido do segredo e para dar a entender que nunca é possível desvendar todas as coisas  (Obs. Esta é uma das mais belas frases do livro)

Sei perfeitamente que, ao assentar pedras, é silêncio que nós criamos. Ora, o silêncio não se vê nas pedras

A alma e o coração escapam às regras da lógica e às leis dos números

Quem ama uma estátua não ama nem o barro, nem o tijolo, nem o bronze, mas sim a ação do escultor

E, por ter sabido construir a minha morada bastante ampla para dar um sentido até às estrelas

Como posso eu decorar o templo, se o recomeço a cada instante?

Não é no objeto que reside o sentido das coisas mas sim no processo

Descobrimos que a vida não tem sentido se não nos trocamos pouco a pouco. A morte do jardineiro não é coisa que lese uma árvore, então o jardineiro morre duas vezes.

Ao morrer levava, sem se dar conta disso, as mãos cheias de estrelas

O fruto, o bordado, a flor, antes de realizados, começam a se banhar de tempo

Mas enche-me de tristeza ver tamanha podridão nesse esgoto que se perde no mar. Deus encontra-se tão desfigurado…

São tantos os trechos com belas frases que, se fosse transcrever aqui todos eles iria quase que transcrever todo o livro. Estas aqui apresentadas, foram tiradas de apenas 31 páginas iniciais.

O que poderia dizer sobre este livro alem de ser, dos livros de Exupéry que li, o mais hermético? É um livro difícil de ser lido, pelos motivos´já mencionados. Por tratar-se de uma obra inacabada,  sem uma espinha dorsal na qual você possa se guiar, fica meio solto o que você encontra mas, a cada frase que você lê, encontra uma bela forma de encarar a vida e uma suave e lírica poesia na sucessão das palavras. Também por ter quase  500 páginas, torna-se um pouco ansiosa a leitura pois, você precisa ler com atenção e cuidado, tentando captar a  cada momento, o pensamento do autor. Demorei uns cinco anos mais ou menos para concluir sua leitura. É um livro denso e cheio de ensinamentos. Quem o abrir, irá conhecer a essência do piloto, do escritor, do homem, do poeta e do aviador que um dia, encontrou o Pequeno Príncipe no deserto e criou uma das maiores obras já conhecidas pela humanidade. O livro mereceu cinco estrelinhas. 5-estrelas

Obras de Exupéry

L’Aviateur (O aviador) – 1926
* Courrier sud (Correio do Sul) – 1929
* Vol de nuit (Vôo Noturno) – 1931
* Terre des hommes (Terra dos Homens) – 1939
* Pilote de guerre (Piloto de Guerra) – 1942
* Le Petit Prince (O Pequeno Príncipe ou O Principezinho) – 1943
* Lettre à un otage – 1943/1944

Póstumas

* Citadelle (Cidadela) – 1948
* Lettres de jeunesse (Cartas da juventude) – 1953
* Carnets (Livros) – 1953
* Lettres à sa mère (Cartas para sua mãe) – 1955
* Écrits de guerre (Escritos de guerra) – 1982
* Manon, danseuse (Manon, dançarino) – 2007

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Alberto Valença nasceu em Olinda - PE. Sempre gostou muito de escrever, sendo a leitura um de seus divertimentos preferidos. Com quatro graduações concluídas, o autor enveredou por várias áreas do conhecimento. Em 1973 concluiu Licencitaura em Física pela UFPE, em 1980 concluiu Bacharelado em Psicologia e Formação de Psicólogo com especialização na área de Psicologia Escolar. em 1999 bacharelou-se em Direito e, no mesmo ano, foi aprovado na OAB-PE exercendo a profissão por dez anos. Publicou em 2014 um poema numa antologia e, agora, publica 15 poemas em outra antologia. Desde a infância gostava também de cinema e, em 2006, criou o blog Verdades de um Ser no qual divulga seus textos e comenta sobre literatura e cinema. Posteriormente, criou também o blog O seu companheiro de viagem, com o qual compartilha suas experiências de viagem oferecendo sempre dicas valiosas para quem quer viajar.
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2 ideias sobre “Cidadela [Livro]

  1. Joselita

    De Exupéry, eu só li O Pequeno Príncipe. Esse é A-D-O-R-Á-V-E-L!!
    Mas se você, que faz críticas com tanto esmero, deu 5 estrelinhas, realmente o livro deve ser ótimo, também.
    Dá para perceber, claramente, o quanto você, como leitor, se envolve naquele “mundo” que está vivendo (lendo) É como se fosse você que estivesse ali, vivendo naquelas cenas que está lendo. Por isso você analisa tão bem! Porque “vive” aquilo que lê. Que tamanha sensibilidade, a sua! Você deveria fazer teatro. (Uma dica)

  2. Denise

    Gosto muito de St Exupery, o admiro, reconheco seu talento, mas quero dizer que maravilhoso foi o seu artigo tambem, que linda homenagem a Exupery! Que sensibilidade, tanto quanto a do autor morto em 1944. Vc resumiu os melhores trechos, claro que para cada pessoa pode haver diferencas, e este livro nao li, mas quero muito pela sua cronica aqui!
    DenisesPlanet.com

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